sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Em 'guerra',

Em 'guerra', PT mira Marina, acerta o setor privado e queima pontes. O pragmatismo pode sair caro

imageTrecho da propaganda da Dilma sobre o pré-sal (Reprodução)
"Estamos em guerra", explica um dirigente petista ao justificar a saraivada de tiros disparados contra Marina Silva, candidata do PSB à Presidência, nas últimas semanas.
Na reta estão não apenas a exploração da hesitação da ex-senadora em se posicionar sobre temas que exigem soluções práticas e não rodeios retóricos. Por exemplo, não se sabe exatamente o que a candidata quer dizer quando defende ser necessário saber onde a bola estará, e não onde ela está, ao relacionar seus compromissos com a exploração do pré-sal e a busca por energias alternativas. Nem o que significa contar com os “melhores quadros” do PT e do PSDB em uma futura gestão.
Quem separaria o joio do trigo? A própria candidata? Como? Em testes de múltipla escolha? Mais: definida sua equipe, com que cara ela se sentaria à mesa para iniciar o diálogo com os peemedebistas Eduardo Cunha e Renan Calheiros, citados pelos marinistas como representantes da “velha política”, e que devem sair das eleições como os principais líderes do Congresso?
São perguntas pertinentes que todos, e não apenas os adversários, devem se fazer em uma campanha eleitoral. Explorar as contradições de um rival conforme a ocasião faz parte do jogo político, goste-se ou não dele.
Mas uma coisa é questionar. Outra é perder a linha.
Capitaneada pelo marqueteiro João Santana, o que a campanha petista tem promovido na TV e nas redes é um festival de sofismas, aquelas ideias que partem de pressupostos corretos para chegar a conclusões falsas. Ou rasas. Ou desonestas.
Marina é acusada de querer acabar com benefícios sociais, como o Bolsa Família, de ameaçar os empregos e de travar, em sua gestão como ministra do Meio Ambiente, obras estruturantes para a população, como as hidrelétricas. Como se tivesse poderes para isso.
Seus apoiadores também estão na mira. Exemplo disso é a forma como uma assessora de Marina Silva, a educadora Neca Setúbal, é tratada pelos rivais pelo fato de ser herdeira do Banco Itaú. Como se o sobrenome da apoiadora, somado à proposta mambembe de autonomia do Banco Central, significasse que em 1° de janeiro de 2015 a política econômica estará entregue nas mãos de banqueiros - ou melhor, do banco da família Setúbal.
O ataque parte de um partido que em 2002 chamou um ex-dirigente do BankBoston para presidir BC, numa tentativas de acalmar os mercados após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva – o mesmo presidente que, vale lembrar, sempre se gabou de que nunca os bancos e os empresários ganharam tanto dinheiro como em seu governo.
Ele tinha razão para se gabar. Era a única liderança política de seu tempo capaz de dialogar, transitar e criar pontes entre os andares de cima e de baixo. Então por que, quatro anos depois, o partido decide agora demonizar empresários e banqueiros, apresentados na TV como coiotes a devorar as sobras do que seria, em um segundo governo Dilma, e só em um segundo governo Dilma, investido na saúde e na educação?
“Porque dá voto, estúpido”, dirão os pragmáticos. Pode ser: pelas pesquisas de intenção de voto, Marina estancou de repente. E parou de crescer. Mas será que isso não aconteceria naturalmente pelo simples fato de Marina, uma vez favorita, passasse a ser escrutinada com mais atenção? E se, em vez de perder a esportiva, o estafe petista apenas levasse a presidenta a público para dizer: “Nossos números são esses, nossas propostas são essas. Estejam à vontade para escolher”.
“Mas guerra é guerra”, dirão, mais uma vez, os pragmáticos, ancorados no discurso de realpolitik que desde 2002 tem servido para as guinadas mais heterodoxas.
Pois foi o próprio ex-presidente Lula quem encerrou a campanha de 2010 dizendo que José Serra, candidato derrotado no segundo turno contra Dilma Rousseff, saía da eleição menor do que entrou. Era verdade: no auge do desespero o tucano escalou a esposa para dizer aos eleitores que, caso eleita, Dilma legalizaria o aborto e “mataria criancinhas”.
Eu estava na fila de repórteres na entrevista coletiva após o então presidente votar em um colégio em São Bernardo do Campo (SP) e testemunhei o desabafo: “Essa campanha foi muito mais violenta de uma parte do que de outra. Eu sinceramente acho que o candidato Serra sai menor dessa campanha. Sai menor. Porque a agressividade deles contra a companheira Dilma Rousseff é uma coisa que eu imaginava que já havia terminado na política brasileira”, disse. “Eu fui candidato cinco vezes. Das cinco vezes eu perdi três e vocês nunca me viram com a agressividade que teve nessa campanha. Nunca.”
Ao eleitor que se lembra daquela declaração, cabe a pergunta: o que mudou em 2014? Mudou a ocasião, insistirão os pragmáticos. Porque, se Dilma Rousseff não ganhar agora, no primeiro turno, na segunda etapa a história é outra.
O PT joga, portanto, como se a atual campanha fosse o último jogo da sua vida. É aí que o pragmatismo vira visão estreita de mundo. A ofensiva se assemelha à estratégia militar de quem ganha ou retoma territórios à medida que empurra o inimigo para longe de seus domínios. Em retirada, os soldados queimam as plantações, as pontes e os canais de comunicação.
O problema é que, apesar da metáfora, não estamos em guerra, e do outro lado da ponte estão justamente as bases de um futuro governo. Falta avisar o marqueteiro que estas pontes queimadas podem travar um futuro quarto mandato petista.
Dilma começou a campanha às turras com o setor privado, que vê em seu governo uma ingerência excessiva em áreas estratégicas e não a quer reeleita. A resposta é, no mínimo, esquizofrênica: ela degolou seu ministro da Fazenda, alvo preferencial das críticas do mercado, como um aceno de que está disposta a mudar o que precisa ser mudado. Ao mesmo tempo, pinta, em sua propaganda da TV, o setor privado como inimigos do país a serviço dos adversários. Não parece ser a melhor forma de reconstruir pontes, um dos objetivos da estratégia de comunicação que tenta dissociar a presidenta da imagem de liderança avessa ao diálogo.
“Mas guerra é guerra e as pontes serão restabelecidas no tempo certo”, arrematarão os pragmáticos, talvez ignorantes da rebelião ensaiada pelos empresários antes mesmo do fim da campanha (muitos relataram o incômodo em reportagem publicada nesta sexta-feira 12 à Folha de S.Paulo). A confusão de metáforas de natureza bélica, nesse sentido, pode ser fatal a médio e longo prazo, como ilustrou, ou deveria ilustrar, a campanha desastrosa da seleção brasileira na Copa do Mundo no Brasil, quando os jogadores pilharam tanto na ideia de que estavam em guerra que simplesmente travaram. Choraram, litaram, bateram no braço. E perderam o que tinham de melhor: a criatividade.
Guerra era guerra, dizia, à sua maneira, o técnico Luiz Felipe Scolari ao fim de cada partida. Cada adversário despachado vinha com um saldo de baixas. Entre mortos e feridos, o resultado era o objetivo a ser atingido, mas aquele não era o time que todo mundo aprendeu a admirar.
Na penúltima trincheira, o jogo contra a Colômbia, a equipe tanto bateu que, no revide, perdeu seu melhor jogador. Entrou contra a Alemanha com um time desfigurado e saiu destroçado. Não perdeu só o jogo, mas a chance de cair de pé, sob aplausos, digno de memórias. Será para sempre lembrado como “a velha forma de fazer futebol, atropelada pelos jovens  e modernos alemães”. Pois é. Guerra era guerra. E uma guerra todos sabem como começa, mas nunca como termina. 
*Reprodução da propaganda de Dilma sobre uma reunião de executivos em um eventual governo Marina Silva

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