sábado, 27 de outubro de 2012

AS VERDADES QUE OS COMANDANTES NÃO QUEREM OUVIR, LER OU TOMAR CONHECIMENTO

A miséria humana nas Forças Armadas


Eu sou o que retrato nos meus textos. Os meus personagens são uma extensão de minha pessoa. Não crio, apenas relato aquilo que está dentro de mim.

José Geraldo Pimentel

Preocupa-me tudo que vejo a minha volta. Na maioria das vezes nada posso fazer; mas dou o meu grito de inconformismo. Luto mais pelos outros do que por mim mesmo. Não entendo muito dessa prioridade. Talvez sofrer as dores dos outros, é sofrer menos que com as nossas próprias dores. É um caminho.

A poucos dias uma de minhas filhas assistiu a agonia de um roedor, - gambá fêmea, - que fora atacado por um cão. Ao seu lado ficaram o que poderia ser os filhotes que escaparam da fúria do animal. A jovem correu em socorro dos filhotinhos do gambá-mãe, e os levou para a casa de uma amiga onde estava hospedada passando uns dias. Tratou os gambás com mamadeira. Depois apareceria em casa com os dois animaizinhos esquisitos, gordos e com um rabo fino de causar espanto. Os gambás filhotes não fediam, como normalmente se dizem dos mesmos.

Foram colocados em uma caixa de papelão e lá ficaram num canto ao lado da cama de casal. Eu tratei de me arranjar no outro quarto. Minha esposa, a filha e seus gambás se mantiveram confortavelmente instalados no melhor recinto da casa. Para encerrar esse episódio, dias depois, estando apenas a esposa no quarto, dormindo, e virando-se na cama, asfixiou um dos gambás, matando-o. O outro já tinha morrido dias antes, por incompatibilidade com o meio em que se encontrava.

Os pequenos roedores não prosperaram na vida, mas aprenderam amar um ser humano, não ter medo e dormir enfronhados nos cabelos compridos de uma garota que sempre soube ser generosa com os animais.

Poucos dias atrás escrevi um texto sobre a sobrevivência de outro roedor, - “O homem, o rato e a descoberta”, - desta feita um rato. O animal que causa mais repugnância às pessoas. Poucos entenderam a minha mensagem quando quis passar a idéia entre se ter e não se ter atitude.

Nesses dois exemplos há um sentido de comiseração, aquela coisa de tratar com respeito o seu semelhante. O amor ao próximo!

Poderia ficar por aqui. Mais tenho um objetivo mais amplo, trazendo ao debate os aspectos da disciplina e hierarquia. Qualquer empresa é movida sob estes pilares. Sem o representante do dono da empresa estabelecido em todos os escalões da direção, passando pela administração, produção e distribuição do produto final, não se chega a resultado algum. Nas Forças Armadas não é diferente. Disciplina e hierarquia, e muito espírito de corpo. Não se imagina um exército sair vitorioso em uma batalha, sem que estes alicerces estejam bem sedimentados. Quanto mais disciplinado e preparado estiver o combatente, maior será a chance da plenitude de um bom resultado na missão.

Um aspecto que chama a atenção nas FFAA é o lado da vaidade pessoal. Este lado da personalidade do indivíduo segue por toda a carreira do militar, dando uma trégua brusca quando alcança um patamar, que não seria o fim da jornada sonhada pela maioria. Chegou-se a general de brigada, mas não a general de divisão, ou não atingiu finalmente o posto máximo do generalato, que é o de general quatro estrelas, o general de Exército. O oficial que pode alcançar um cargo no Alto Comando do Exército. A maioria nem chega à morrer na praia, porquanto não se aventura embrenhar-se mar a dentro. Seu sonho é mais modesto, e o resultado a que chegou, o basta.

Nessa trajetória não se poderia colocar os graduados. O quadro é menos ambicioso, deixando uns poucos no patamar de uma promoção a capitão QAO (Quadro Auxiliar de Oficiais). Os que alcançam este posto se comprazem com a melhoria salarial, sem grandes vaidades, e sonhos de comando. Muitos, mesmo vislumbrando o último posto da carreira, se têm tempo para solicitar a reserva, o fazem tranquilamente.

Mas o que me motiva a escrever este texto é o lado humano do problema entre se sentir prestigiado, e por conseqüência, ter melhor rendimento no seu ofício, e a atitude que transita na fronteira entre a hierarquia e a prepotência. Uma palavra bem indigesta, mas verdadeira.

Dissertar sobre o tema seria me alongar e deixar mágoas pelo caminho. Prefiro mostrar soluções, palpáveis, que não doem no bolso e nem nas vaidades.

Se formos analisar a Medida Provisória 2215/2001 (MP DO MAL), veremos quantas vantagens que complementavam os salários, ficaram para trás, aviltando os vencimentos dos militares.

A reposição salarial se transformou em arma de vingança, em que um governo com tendências revanchistas, procura ir às forras com os militares. As autoridades militares que poderiam arbitrar um posicionamento no debate com as autoridades ligadas à área econômica do governo, às vezes nem tanto bem atendidas em suas necessidades, fazem-se de surdas aos clamores da tropa. Ganham menos do que mereciam, comparadas às carreiras secundarias da folha de pagamento do poder central. Mas não querem complicações para o seu lado. “Melhor ganhar um pouco menos, mesmo tratadas como cachorrões, do que perder tudo, ao por em risco o cargo!” E fica o dito pelo não dito. Insatisfação na tropa, desequilíbrio emocional, com o extremo de apelar-se para o suicídio, arbítrio que não é privilégio só de graduados. Oficiais generais chegaram a este ponto, e ninguém tomou uma providência! “Problema de família!” Alegam.

Problema realmente de família. Um graduado ou um oficial no inicio de carreira, supera as adversidades apertando o cinto, apelando para uma ocupação paralela, nas horas vagas... Mas um oficial general! Se faz uma palestra não é remunerado, diferentemente de indivíduos como o ex presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, que teve muitos dos favores retribuídos com a paga de palestras organizadas por empreiteiras e empresas beneficiadas com obras superfaturadas e outros atributos inerentes ao submundo da contravenção dos bandidos de colarinho branco. Apelar para dar um tiro no céu da boca virou moda entre os oficiais quatro estrelas. Dói menos e não deixa seqüelas: mata mesmo!

Uma reunião do Alto Comando do Exército para tratar de coisas sérias, cairia bem. Alguns problemas deixariam de ser tratados como tabus, melhorando a vida dos militares. Vejam-se alguns exemplos:

- tirar da gaveta a Medida Provisória do MAL;

- diminuir o interstício das praças;

- levar em conta o tempo de serviço, e não simplesmente o posto. Um aspirante a oficial já sai da Academia Militar ganhando mais do que um subtenente com quase trinta anos de serviço, no final da carreira;

- ampliar a assistência médico-hospitalar do FUSEX a fim de atender a toda a família do militar: o próprio, a esposa, pais e filhos, aumentando o valor da mensalidade. Um plano de saúde, realmente, e não um arremedo de plano que constrange o militar;

- fazer uma fiscalização rigorosa no POUPEX e CAPEMISA, verdadeiros focos de exploração, cujos descontos não condizem com os pecúlios prometidos, e reajustes anuais que são feitos independentes de acompanhamento do reajuste da tropa; e

- não discriminar o reformado. O militar que completa 69 anos e 11 meses de idade, perde o direito a fazer empréstimo consignado ou a possibilidade de reformá-lo, situação que só existe no Exército, não acontecendo com as outras Forças, e nem com o funcionário civil do próprio Exército. Uma discriminação que considero covarde e odiosa!

Corrigir essas deficiências, será a mesma coisa que tratar o militar de menor graduação ou posto, com ao menos a consideração que uma pessoa caridosa dispensa a um animal, não importando se é um cavalo de raça, um cão ou gato de estimação, e até um simples roedor, que também é filho de Deus!

Preciso ser tratado como um ser humano. Chega de me tratarem como um roedor pestilento!

José Geraldo Pimentel

Cap Ref EB

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2012.

http://www.jgpimentel.com.br

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